Starry Box

Starry Box

  1. Marcha da Liberdade

    Liberdade pra quê? Se somos reféns dos nossos próprios conceitos de “liberdade”, se ficamos escravos do que parece nos tornar livres?

    Presos nos nossos princípios, presos pelos princípios alheios.
    Nem príncipes nem reis por direito, mas -primeiro- produtos do meio.


  2. Lagarteie

    O sol que agora
    rebenta lá fora
    só vai embora
    quando for a hora
    de você partir.


  3. Um dedo preso na porta do carro não é nada. Vai te fazer chorar que nem criança no meio da rua e ter medo de tentar fechar a mão pra ver se está tudo “bem”, se nenhum osso se quebrou. Mas o que dizer daquela outra dor, que também te faz chorar que nem criança no meio da rua - agora, sozinha - e ter medo de pensar no amanhã e se convencer de que tá tudo bem, nenhum coração se quebrou? Não vai ter pronto-socorro que dê jeito, não vai ter médico que receite um emplastro, não vai ter como faltar à vida por um dia porque sua cabeça não está funcionando direito. A dor não vai passar em dois, três dias, ou em uma semana. E não, ele não estará lá para segurar sua mão, pedir desculpas e cuidar de você.

    Mas, talvez depois de um tempo, quando a cura já tiver chegado, essa cicatriz da ausência te deixe mais feliz que aquela cicatriz no corpo. 


  4. A idade chega, não tem choro nem vela. E ela não surge do nada, pegando de surpresa, pulando a janela. A idade vem de mansinho, de fininho, ano após ano, pouco a pouco. Não é como a impensável doença, não é como o inusitado soco. É nas varizes feias, no pulsar das veias e no arfar do peito que a idade dá seus sinais. É no cansaço do dia-a-dia, na força que se enfraquece e na lembrança que se esquece que ela nos mostra que somos mortais. Nas rugas finas que se formam, tão lentamente que não nos damos conta. No fio de cabelo branco, que nunca percebemos quando desponta. Na pele elástica que perdemos, na gordura drástica que ganhamos, nas dobras e fissuras e tons e cicatrizes que vão se marcando com violência gritante em nossa superfície. Nas crises de gastrite, de espirro, de abstinência, de identidade, e nas crises financeiras, sim. Nas crises de meia-idade, porque o meio é o início do fim. Nas crises de choro, de riso, de TPM e de loucura. E nas dores - físicas, internas, emocionais - com as quais aprendemos, também com o tempo, que tudo, de uma forma ou de outra, tem cura.



  5. Tristeza. Uma tristeza tão profunda de não saber quem sou. Ou de saber - talvez este seja o problema. Tristeza de não me encaixar, não me adaptar, não me identificar.

    O que me envolve, o que me define, o que me abriga? Procuro que invólucro que me pertenceria de tal forma que se fundisse à minha pele? Eu preciso, como tu precisas, desta capa indefectível, que é quase uma bolha ou redoma - não de isolamento, mas de proteção, de armadura, de vestimenta. De ser. Porque é parte do todo.

    Mas ainda me sinto nua. O que me resta são retalhos e coberturas que não me servem. Parece que nenhuma roupa é meu número certo. Uma é muito apertada e me prende, outra é muito curta e me expõe, outra é larga demais e me deforma.